VIAGEM, FRUTOS E NATUREZA II

image

Lichia (imagem em cima) é o nome comum dado ao fruto da espécie litchi chinensis, do gênero botânico litchi, que pertence à família Sapindaceae, à qual pertence o guaraná (Pualinia cupana), que muitos já devem ter ouvido falar. É uma árvore frutífera e os nomes comuns dados ao fruto também se aplicam à árvore, popularmente chamada de lecheira, licheira, lichia ou uravaia. É uma planta natural das regiões quentes da Ásia sendo principalmente encontrada na China, de onde origina o nome lichia, Índia, Nepal, Blangladesh, Paquistão, Sul e centro do Taiwan, a Norte do Vietnam, Indonesia, Tailândia, mas também encontrada no México, Madagascar e África do Sul.

Uma planta internacional, dos trópicos. Eu fui levado a consumir lichia da forma apaixonada que faço agora, desde os meus primeiros encontros no mercado, no mês de dezembro, em que a fruta estava no pico da época. Isto foi no Norte da Austrália, em Cairns, na Austrália tropical, ou como costumo dizer a Inglaterra tropical. As bancas do mercado enchem-se de lichias, e os mercadores debruçados sobre a banca, organizando a disposição dos frutos, anunciam efusivamente o mais actualizado custo do fruto. Curiosamente os mercadores são geralmente de origem asiática, Tailândia ou Indonésia. Assim vendem a fruto que é comum nas suas terras. A cidade de Cairns avizinhada pela Floresta Daintree e as planícies de Tablelands, apresenta o clima e espaço para a difusão e cultivo desta cultura, que tanto os agricultures e consumidores servem-se dela.

A árvore eu ainda não a vi. É uma árvore de dimensão média, chegando a atingir entre os 20 e 25 metros de altura (sem controlo artificial), com folhas compostas alternadas de 20cm em média, com 2 a 8 folíolos laterais. Quando jovens a folhas apresentam um tom avermelhado cor de cobre, que se tornam verdes assim que atingem a sua dimensão final. As flores são pequenas de cor verde-amareladas ou brancas. Sendo uma árvore ecologicamente adaptada ao clima tropical e subtropical, embora algumas variedades resistem, a espécie sofre com geadas e verões. Aprecia solos profundos, silico-argilosos e férteis são ideais, preferindo solos ácidos a calcários.

Os frutos, hmm saborosos! Vistos de fora aparentam-se a morangos ou ao rambutan. Do tamanho do morango, o fruto é uma baga e apresentam-se em cachos. É fácil de descascar, com apenas uma semente castanha de forma oblíqua, como uma amêndoa, e polpa não aderente. A polpa, a única parte comestível, é translúcida, suculenta, cheia de sumo hidratante fresco e doce.

A nível nutricional a Lichia é uma boa fonte de vitamina C, mas também contém as vitaminas do complexo B, sódio, cálcio e potássio. Por possuir propriedades antioxidantes, o fruto é usado também no fabrico de produtos cosméticos. Há no entanto um conjunto de aminoácidos incomuns nas propriedades da lichia que interferem na produção de glucose no corpo. Há registos de causas de morte devido ao consumo exagerado de lichias em estômago vazio após longos períodos de fomes, de corpo fraco e vulnerável. A substância hipoglicina que contém a lichia, que é o que vai diminuir a produção metabólica de glicose do corpo. O consumo pode ser problemático apenas se os níveis de açúcar no sangue já estiverem muito baixos. Caso contrário, não há razões para evitar o consumo desta fruta fresca!

Devo dizer que talvez a primeira vez que provei Lichia deve ter sido um fruto importado num supermercado em Portugal. E talvez para meu azar, a impressão com que fiquei dum sabor ácido, hoje sei não natural da lichia, deixou-me muito reticente a provar novamente a lichia num mercado de produção local em Cairns. Incrível a associação que a memória faz para toda a eternidade. Digo isto não para não provarem o fruto exótico que têm coriusidade de provar, que na verdade podem ter mais sorte que eu, mas para consumirem sempre os frutos na sua natureza geográfica e em sua época natural. Só assim o fruto poderá revelar o seu maior potencial para o nosso corpo, mente e espírito.

Longans

image

É também da família botânica Sapindaceae, bem conhecida pelos seus frutos comestíveis. O seu nome científico é Dimocarpus longan e tem varias subespécies e variedades naturais da Indo-China e Malásia, Vietnam, Filipinas e Borneo, ilha da Malásia. É nativa do sudoeste asiático e dos mais bem conhecidos frutos desta família. Semelhante aos outros frutos comestíveis da família mas bem menos interessante em sabor comparativamente com a lichia.

O nome comum, dado ao fruto mas também à sua árvore, Logan vem do cantonês e significa “olho de dragão” porque depois de a baga ser descascada a sua forma esférica lembra um globo ocular e a única semente redonda, dura e negra, no seu interior lembra a íris. O fruto frutifica em cacho. Quando amadurecido e colhido a casca, cor de cortiça, fina e firme é faicil se quebrar e de espremer e separar (e do carpo não aderente) da parte comestível, o “olho de dragão”.

A sua árvore pode atingir a altura máxima de 30m, mas tem um tamanho comum médio de 10-12m, variando no tipo e condição do solos. A copa é redonda e o tronco, rico em lenhina dando origem a uma cortiça porosa, pode chegar aos 80cm de largura. As folhas são oblongas e pontiagudas, entre 10cm e 20cm, compostas em forma de pena e alternadas. Cada folha compostos por 6-8 folíolos. Os longans produzem inflorescências, arranjo tipo paniculas, de pequenas flores amarelo claro. As influrescencias incluem flores estaminais, pistilias e hermafróditas (M, F e F/M). A árvore não suporta geadas e não prefere temperaturas inferiores a 4graus Celsius. Longans preferem solos arenosos.

Os longans são frutos redondos de cerca de 2cm de diâmetro. E por muito pequenos que pareçam a sua árvore pode ser grande e de uma imponência aparente no seu espaço. O seu sabor é intrigante, sobre o qual se podia dizer que se demora a saber desgostar. O seu sabor maturo tem algo de elemental, lembra qualquer fruto seco, e a sua qualidade enche bem o estômago. Aconselho a procurarem e provarem, assim que tiverem oportunidade!

Soursop

image

Soursop é o nome comum em inglês. Em português dá-se o nome de graviola, ou até coração-da-Índia. Embora não se sabia a sua origem exacta, graviola, sua árvore com o nome científico de Annona muricata, é uma espécie nativa das Américas e Caraíbas, mas está vastamente cultivadas pelo globo fora, em climas tropicais e sub-tropicais, por vezes assumindo um papel de invasora. Eu pessoalmente tive o primeiro contacto com a com este fruto no Nordeste da Austrália, em Queensland.

Annona muricata é uma espécie que pertence à família botânica Annonaceae. Em Portugal, na ilha da Madeira é cultivado e produzido outro fruto comestível parente da graviola, a anona, Annona squamosa. Outro fruto comestível parente é a maçã-doce, Annona cherimoya, em inglês com o nome comum de ‘custard Apple’, sobre a qual Mark Twain disse ser “o fruto mais delicioso conhecido à humanidade”, enfatizando a sua adoração.

Annona muricata é uma árvore de folhas persistentes, oblongas e de ponta arredondada. Adaptada a alta humidade e a invernos quentes, temperaturas abaixo de 5grausC podem afetar as suas folhas e os seus pequenos ramos, e temperatura inferiores a 3grausC podem ser fatais. Portanto demonstra ser uma planta bem tropical, o seu calor é o seu conforto e climas temperados não são de todo a sua onda. Em condições favoráveis demonstra ser uma árvore pequena atingindo um máximo registado de 9,1m. Resistente a solos pobres e capaz de suportar altitudes de 0 a 1300m, clara sempre em função da variante à qual é mais sensível a humildade e temperatura.

E claro o seu sabor, incrível e delicioso é toda a razão pela qual se tornou vastamente cultivada. Na Indonésia a sua polpa cozida em água dá origem, a dodol sirsak, a uma espécie de carne doce. Mas é fresca que a soursop (graviola) mexeu comigo. Para mim, a polpa branca tem um sabor a iogurte com sabor e a textura embora cremosa é fibrosa também, que lembra as fibras do bacalhau cozido. Assim foi que consegui descrever este pela primeira vez. Uma delicia surpreendente mesmo! Com o seu aroma similar ao ananás, varias descrições falam de que o seu sabor é como uma combinação dos aromas de morango e maçã, com pequenos toques de citrino, e a sua textura cremosa (o iogurte! Vegan hey! Directamente da árvore!) lembra a de coco ou banana. Hmmm imaginem que é verdade! Um presente do cosmos plantado na terra! De adorar.

A época do soursop, FNQ Australia, é de Julho a Decembro. É cultivada mais em pequenas quintas de características mais familiar e local. O bom gosto local preserva o seu cultivo. No mercado é bem valorizado e aparece assim em pequenas quantidades. E quem não acorda cedo para ir ao mercado acaba por deixar escapar esta delícia.

Além de um sabor divinal esta maravilha tem a fama de ser uma alternativa à cura do cancro. Embora haja bastante debate no tema devido à falta de provas científicas, ainda assim o seu uso aparece em algumas listas de tratamento de cancro, como é no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center. O Cancer Research UK também alega que os seus estudos comprova que extractors de graviola destroem células de cancro da mama e do figado, células até resistentes a quimioterapia.

Soursop (ou graviola) possui quantidades significativas de Vitamina C, B1 e B2. No entanto as suas, quen sementes do tamanha de amêndoas, lisas e castanhas escuras, contém o composto anonacina que é uma neurotoxina com efeitos bem nefastos, descritos como veneno.

É no entanto um fruto que tem de belo tanto quanto tem de ameaçador. A saborear, simplesmente não coloquem o fruto todo numa trituradora sem retirar as sementes, talvez não tornarão um belo pequeno almoço em algo degenerativo. Intrigante e algo tão cheio de dualidade num só fruto!

Boas Descobertas!